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O
povo cigano fugiu à regra. Não há registro de linguagem escrita,
portanto, é quase impossível definir com precisão sua origem. A
maior parte das teses são especulativas.
A
hipótese mais aceita diz que o povo cigano teve seu berço na
civilização da Índia. Acredita-se que os ciganos falavam o sânscrito,
seguramente, um dos mais antigos idiomas do mundo. Há pontos comuns
entre ciganos e hindus; a tez morena, as vestes coloridas, a
crença na reencarnação e na existência de um único Deus.
Curioso também é o fato dos ciganos cultuarem uma santa, Sara Kali,
venerada pelos hindus como mãe universal. Sara Kali protegia a família,
os acampamentos e os alimentos.
Num
passado remoto os ciganos migrou em busca de terras onde pudessem
viver com liberdade. Para os ciganos, viver como nômades é o mais
amplo sentido de liberdade. As moradias, tendas de tecidos
permeáveis e resistentes, e seus pertences em geral, sempre foram
confortáveis para que o transporte fosse facilitado. O nômade não
se preocupa com o possuir, mas com o viver.
As
populações ciganas são nômades por excelência, não têm pátria,
são universais. Viajam em grupos de famílias, que possuem um
profundo sentido de união, solidariedade e companheirismo. As
regras são levadas a sério, pois os ciganos sabem que são elas
que garantem a união e a sobrevivência do próprio grupo, esta
coerência no cumprimento das regras impede que os ciganos
mesclem-se às demais culturas do planeta, evitando a descaracterização
de sua cultura e raízes.
O
sucesso da preservação da tradição cigana consiste na adoção
do idioma universalmente falado por eles, o romani, ou rumanez, que
é expressamente proibido aos não-ciganos.
O
romani é uma língua ágrafa, ou seja, um idioma sem forma escrita.
Sua perpetuação conta somente com a transmissão oral de uma
geração para outra. Os mais velhos ensinam aos mais jovens e às
crianças os conhecimentos do passado, o pensamento e a maneira de
viver herdados dos ancestrais.
Com
a modernidade, o aumento progressivo das cidades, os ciganos foram
ficando cada vez mais limitados em suas andanças, tornando-se mais
sedentários ou passando a morar mais tempo no mesmo lugar. Assim as
profissões mais freqüentes são as do comércio e as ligadas às
artes, principalmente à musica e a dança, fortemente marcada pelo
estilo flamenco, trazendo alegria e energia contagiante para os
recintos onde se apresentam.
Os
ciganos são obedientes às leis universais. Quando um cigano
infringe as leis é convocado o Tribunal de Justiça ou o
Cris-romani, formado por ciganos idosos ou pelos mais velhos do
grupo, que julgam os infratores exercendo seu papel com ampla
responsabilidade. O Cris-romani é falado totalmente em romani, e
nele somente os homens podem se manifestar. No caso do infrator ser
uma mulher, um homem fala por ela fazendo seus apelos e oferecendo
suas explicações ou justificativas.
Na
hierarquia cigana não há chefes, pajés ou curandeiros, pois os
ciganos são talhados para a magia, possuindo dons místicos
naturais. O povo cigano se considera portador de virtudes doadas por
Deus.
O
comando da família é exercido de maneira completa e responsável
pelo homem. Ele é o líder e à ele competem a proteção, a
segurança e o sustento da família. A mulher e os filhos o
respeitam como máxima autoridade e lhe são inteiramente
subordinados.
São
os homens que resolvem as pendências, acertam o casamento dos
filhos, decidem o destino da viagem e se reúnem em conselhos sobre
assuntos abrangentes e comuns ao Clã.
Os
ciganos formam casais legítimos unidos pelos laços do matrimônio,
não fazendo parte de seus costumes viverem amasiados ou aceitarem o
concubinato. Vivem juntos geralmente até a morte e raramente
ocorrem entre eles separações ou divórcios, que somente acontecem
se existir uma razão muitíssimo grave e com decisão do Tribunal
reunido para julgar a questão.
Os
pares ciganos, marido e mulher, são muito discretos em público. O
homem é esteio da família; a mulher significa o lado terno e
de proteção espiritual dos lares ciganos.
Em
todos os clãs ciganos os idosos merecem a mais alta consideração
e respeito. São vistos e tratados como detentores de sabedoria e
experiência de vida acumulada, por isso, seus conselhos são
ouvidos por todos (jovens e adultos).
O
povo cigano acredita na vida após a morte e pratica todos os
rituais que possam aliviar a dor dos seus antepassados já
falecidos, assim, é tradição colocar uma moeda no caixão do ente
querido para que este possa pagar a travessia do grande rio que
separa a vida da morte.
Costumavam enterrar os mortos juntamente com os seus bens de valor,
mas esta prática foi abandonada devido à violação de túmulos.
Ao invés de encomendarem uma missa pela alma dos que partiram, os
ciganos oferecem uma cerimônia com água, flores, frutas e as suas
comidas preferidas, na esperança de que a alma do morto partilhe
com eles a cerimônia e se vá libertando das coisas mundanas.
Os ciganos dizem que o sabor adocicado das frutas está intimamente
ligado à um bom destino. Por isso, têm o costume de comer frutas e
alimentos derivados delas, assim como beber vinhos licorosos ou
tomar banhos regados a mel e açúcar para atrair sorte.
Iramaia
Regina Amoretti |