Documentos, registros escritos, ruínas, pinturas, armas, túmulos e objetos, particularmente os de uso doméstico recompõem a narrativa histórica de um povo, que num determinado espaço geográfico, partilharam das mesmas leis. hábitos, costumes e crenças.

A mais importante fonte de referência, é a narrativa escrita, encontrada em papéis (pergaminhos, papiros, folhas de papel de arroz), documentos, livros, poemas, mapas, inscrições em lugares santos, ou outros locais de devoção considerados sagrados, onde são encontradas marcas de rituais e altares de oferendas.

O povo cigano fugiu à regra. Não há registro de linguagem escrita, portanto, é quase impossível definir com precisão sua origem. A maior parte das teses são especulativas.

A hipótese mais aceita diz que o povo cigano teve seu berço na civilização da Índia. Acredita-se que os ciganos falavam o sânscrito, seguramente, um dos mais antigos idiomas do mundo. Há pontos comuns entre ciganos e hindus; a tez morena,  as vestes coloridas, a crença na reencarnação e na existência de um único Deus. Curioso também é o fato dos ciganos cultuarem uma santa, Sara Kali, venerada pelos hindus como mãe universal. Sara Kali protegia a família, os acampamentos e os alimentos.

Num passado remoto os ciganos migrou em busca de terras onde pudessem viver com liberdade. Para os ciganos, viver como nômades é o mais amplo sentido de liberdade. As  moradias, tendas de tecidos permeáveis e resistentes, e seus pertences em geral, sempre foram confortáveis para que o transporte fosse facilitado. O nômade não se preocupa com o possuir, mas com o viver.

As populações ciganas são nômades por excelência, não têm pátria, são universais. Viajam em grupos de famílias, que possuem um profundo sentido de união, solidariedade e companheirismo. As regras são levadas a sério, pois os ciganos sabem que são elas que garantem a união e a sobrevivência do próprio grupo, esta coerência no cumprimento das regras impede que os ciganos mesclem-se às demais culturas do planeta, evitando a descaracterização de sua cultura e raízes.

 O sucesso da preservação da tradição cigana consiste na adoção do idioma universalmente falado por eles, o romani, ou rumanez, que é expressamente proibido aos não-ciganos.

O romani é uma língua ágrafa, ou seja, um idioma sem forma escrita. Sua perpetuação  conta somente com a transmissão oral de uma geração para outra. Os mais velhos ensinam aos mais jovens e às crianças os conhecimentos do passado, o pensamento e a maneira de viver herdados dos ancestrais.

Com a modernidade, o aumento progressivo das cidades, os ciganos foram ficando cada vez mais limitados em suas andanças, tornando-se mais sedentários ou passando a morar mais tempo no mesmo lugar. Assim as profissões mais freqüentes são as do comércio e as ligadas às artes, principalmente à musica e a dança, fortemente marcada pelo estilo flamenco, trazendo alegria e energia contagiante para os recintos onde se apresentam.

Os ciganos são obedientes às leis universais. Quando um cigano infringe as leis é convocado o Tribunal de Justiça ou o Cris-romani, formado por ciganos idosos ou pelos mais velhos do grupo, que julgam os infratores exercendo seu papel com ampla responsabilidade. O Cris-romani é falado totalmente em romani, e nele somente os homens podem se manifestar. No caso do infrator ser uma mulher, um homem fala por ela fazendo seus apelos e oferecendo suas explicações ou justificativas.

Na hierarquia cigana não há chefes, pajés ou curandeiros, pois os ciganos são talhados para a magia, possuindo dons místicos naturais. O povo cigano se considera portador de virtudes doadas por Deus. 

O comando da família é exercido de maneira completa e responsável pelo homem. Ele é o líder e à ele competem a proteção, a segurança e o sustento da família. A mulher e os filhos o respeitam como máxima autoridade e lhe são inteiramente subordinados.

São os homens que resolvem as pendências, acertam o casamento dos filhos, decidem o destino da viagem e se reúnem em conselhos sobre assuntos abrangentes e comuns ao Clã.

Os ciganos formam casais legítimos unidos pelos laços do matrimônio, não fazendo parte de seus costumes viverem amasiados ou aceitarem o concubinato. Vivem juntos geralmente até a morte e raramente ocorrem entre eles separações ou divórcios, que somente acontecem se existir uma razão muitíssimo grave e com decisão do Tribunal reunido para julgar a questão.

Os pares ciganos, marido e mulher, são muito discretos em público. O homem é esteio  da família; a mulher significa o lado terno e de proteção espiritual dos lares ciganos.

Em todos os clãs ciganos os idosos merecem a mais alta consideração e respeito. São vistos e tratados como detentores de sabedoria e experiência de vida acumulada, por isso, seus conselhos são ouvidos por todos (jovens e adultos).

O povo cigano acredita na vida após a morte e pratica todos os rituais que possam aliviar a dor dos seus antepassados já falecidos, assim, é tradição colocar uma moeda no caixão do ente querido para que este possa pagar a travessia do grande rio que separa a vida da morte.
Costumavam enterrar os mortos juntamente com os seus bens de valor, mas esta prática foi abandonada devido à violação de túmulos. Ao invés de encomendarem uma missa pela alma dos que partiram, os ciganos oferecem uma cerimônia com água, flores, frutas e as suas comidas preferidas, na esperança de que a alma do morto partilhe com eles a cerimônia e se vá libertando das coisas mundanas.
Os ciganos dizem que o sabor adocicado das frutas está intimamente ligado à um bom destino. Por isso, têm o costume de comer frutas e alimentos derivados delas, assim como beber vinhos licorosos ou tomar banhos regados a mel e açúcar para atrair sorte.

Iramaia Regina Amoretti